20090421

XXX em Madrid

- Vá, temos que ir espreitar.
- LOL, tá bom, bora lá.
Entramos. O ambiente é escuro e a média de idades anda muito perto dos 40 pra cima - provavelmente por isso é que nos deixaram entrar "à vontade".
O bar, "Eagle", é um dos múltiplos que têm espaços para tudo e mais alguma coisa, e a curiosidade tinha que levar a melhor. Entramos e ficamos na boa, ninguém abusa da confiança. Estão várias pessoas espalhadas pelo espaço, com vários níveis de adereços adequados ao fetiche. Bebemos uma cerveja. Entramos para lá da porta dos cortinados. Parece que é ainda cedo e não se passa nada demais, o ambiente parece bastante "familiar" no sentido em que toda a gente se conhece- nós somos os estranhos.
- Vamos acabar de beber e bazar, ya?
- LOL sim, mesmo.
Reparo que alguém comenta o factor "novatos". Estou sentado num banco (ou algo parecido, a mobília era útil, mas acho que não destinada para sentar simplesmente) e um senhor põe-se de rabo levantado directamente à minha frente (ou seja, com os braços um de cada um dos meus lados) a levar tatau de um outro.
30 segundos e devem ter achado que já me tinham chocado. Na realidade estava simplesmente a achar divertida a situação - da parte deles também estavam apenas a gozar connosco (fair enough, o que serve para um lado também serve para o outro).
Acabamos a cerveja.
À saída recebemos um "voltem sempre", enquanto que a outras pessoas impediam a entrada por não estarem equipados a preceito...

Enfim.

As noites leather de Madrid...

20090419

Hoje já não faço anos.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de nãa perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
( Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minha lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muita coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, "Aniversário"